A Copa prestes a começar na Rússia será a primeira, em onze edições do torneio, na qual o suíço Joseph Blatter não terá o papel de comandante ou organizador do evento.
O ex-presidente da Fifa viajará para Moscou, capital russa, em algum momento do mês e já indicou confirmou presença na festa de abertura do evento. Mas, em entrevista exclusiva ao Jornal O Estado de S. Paulo, Blatter confessou: “ficarei com um pouco de saudade de não estar mais no púlpito”.
Derrubado diante do pior escândalo de corrupção da história do esporte, Blatter deixou seu reinado em 2015, depois de quatro décadas como secretário-geral e, posteriormente, presidente da entidade. Investigado, o suíço passou a evitar viagens e se concentrou na defesa. Ainda assim, o presidente russo, Vladimir Putin, fez questão de enviar um convite. O Kremlin chegou a dizer, no mesmo ano, que Blatter merecia o Prêmio Nobel da Paz. No entanto, toda a tensão dentro da Fifa estava focada na imagem negativa da entidade diante da presença incômoda do ex-dirigente.
Gianni Infantino, presidente da Fifa, insiste na virada de página da corrupção e no fim da crise. Superada a saia-justa, os russos insistem considerar Blatter apenas como um “velho amigo”. Blatter garantiu presença em Mundial. “Eu estarei lá”, afirmou. “Será minha 11ª Copa”, explicou. O suíço, porém, não esconde uma certa frustração. “Claro, será diferente e ficarei com um pouco de saudades de não estar mais no púlpito. Mas o futebol continua a ter um papel importante no mundo. Fico honrado de ter sido convidado”, afirmou.
O discurso não deixa dúvidas: para o cartola, anteriormente o homem mais poderoso do futebol mundial, o esporte tem um forte caráter político e mesmo a escolha de sedes havia sido tomada no suposto acordo. “Quando tomamos a decisão de levar para a Rússia, havia um consenso de ir para Moscou em 2018 e, em 2022, aos Estados Unidos. Pedimos (aos dirigentes) que unissem esforços e dessem as mãos”, disse. “Mas pela intervenção política do presidente da França (Nicolas Sarkozy), isso não foi mais possível”, lamentou, em referência ao fato de Paris ter fechado acordo com o Catar e, com isso, levado os votos europeus para o país do Golfo.
“O futebol ganhou uma dimensão tão grande que o aspecto político não pode mais ser retirado”, reconhece Blatter. “Graças ao casamento com a televisão, o futebol ganhou um aspecto econômico enorme, não apenas para a Fifa. Mas para os mercados. Hoje, ele tem uma dimensão política. Na verdade, eu me perguntou se hoje ele é ator na política ou diretor de operações?”, completou, enigmático.
