A exposição "Coexistir Coabitar", em cartaz no Rio de Janeiro, reúne obras de pessoas egressas do sistema prisional e seus familiares. As criações, que exploram diversas linguagens como pintura, performance e vídeo, propõem reflexões sobre encarceramento, desigualdades sociais e a eficácia de políticas públicas.
Trajetórias Transformadas em Arte
A Experiência de Wallace Costa
Wallace Costa, artista e biomédico de 29 anos, residente em Irajá, Zona Norte, apresenta a obra "Cadeias de Vidro". Composta por três telas em resina, a peça revisita a experiência prisional de seu pai e as marcas deixadas na família, incluindo um período de 11 anos de encarceramento e posterior uso de tornozeleira eletrônica.
Para Wallace, a arte é um veículo para elaborar memórias e fomentar o diálogo sobre justiça, saúde mental e ressocialização. A placa central da obra recria um jornal que associou o pai a uma rebelião em 2004, enquanto fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados simbolizam a fragmentação e anulação do indivíduo preso.
O artista busca tanto a identificação com a vivência alheia quanto a autoanálise através de um reflexo distorcido, transcendendo a mera notícia para focar na saúde mental dos egressos após a passagem pelo sistema prisional.
Larissa Rolando e a Ressignificação Pessoal
A jovem Larissa Rolando, 20 anos, de Bangu, transformou sua experiência de três meses no sistema prisional (entre fevereiro e maio do ano passado) em arte e reflexão. Mulher trans, ela enfrentou o pânico de ser alocada em uma unidade masculina, embora tenha recebido tratamento respeitoso dos detentos, apesar das condições precárias de higiene e alimentação.
Essa vivência, descrita como uma "virada de chave", amadureceu Larissa, levando-a a reavaliar amizades e prioridades. Sua mudança de perspectiva se reflete na escultura de um "coração empalado", com CDs emergindo das veias, simbolizando a música como uma constante em sua vida, desde a infância e transição de gênero, nos momentos felizes e tristes.
Visão Curatorial e Impacto Educativo
A mostra "Coexistir Coabitar" é resultado de uma residência artística no Museu da Vida Fiocruz, envolvendo 27 artistas egressos dos sistemas prisional e socioeducativo, além de seus familiares. O projeto integra arte, saúde e justiça social, utilizando a criação como ferramenta de escuta e reconstrução de trajetórias.
O curador Jean Carlos Azuos enfatiza que as obras partem das experiências reais dos participantes, e não de temas pré-definidos. Ele destaca como a arte, a justiça social e a saúde ampliada se interligam nos processos criativos, tornando-se matéria e linguagem intrínsecas às criações.
A programação complementar inclui atividades educativas como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa, visando ampliar o diálogo com o público sobre as questões abordadas pela exposição.
Serviço da Exposição
<b>Exposição:</b> Coexistir Coabitar
<b>Local:</b> Largo das Artes – Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar)
<b>Visitação:</b> Até 25 de abril de 2026
<b>Horário:</b> Terça a sábado, das 10h às 17h
<b>Entrada:</b> Gratuita
