François Hollande, o presidente francês, aproveitou que estava falando para o público de Davos, basicamente executivos de grandes empresas, para lançar uma tese ousada: dar uma resposta “global e compartilhada pelos Estados e pelas grandes empresas contra o terrorismo”.
Como presidente de um país que é a vítima mais recente do terrorismo islamista, Hollande sentiu-se compelido a tomar a iniciativa de propor a “resposta global”. Para as empresas financeiras, o papel reservado, segundo o mandatário francês seria o de “cortar as fontes de financiamento do terrorismo”.
Esta última ideia não é nova, mas secar as fontes de financiamento do terror tem sido, essencialmente, um movimento dos Estados, que o sistema financeiro apenas implementa. Que as empresas adiram ao combate global contra o terrorismo seria uma novidade.
Hollande justificou assim a sua proposta: “Não há potência política sem potência econômica”, o que, na sua opinião, deveria levar os empresários a também investir na segurança.
Fortalecido pela elogiada reação aos atentados do início do mês em Paris, Hollande tocou também em outro assunto no qual a França terá papel relevante, o acordo sobre o clima.
A França será a sede, em dezembro, de uma conferência mundial teoricamente destinada a fechar um fugidio acordo sobre mudança climática. O presidente, nesse capítulo também, apelo ao público de Davos, convidando os executivos “a investir maciçamente na economia verde”.
Lembrou que os fundos das Nações Unidas destinados a financiar ações contra o aquecimento global não receberam, até agora, mais que € 2 bilhões (R$ 5,8 bilhões), quando são necessários € 100 bilhões (R$ 290 bilhões). “Precisamos, portanto, encontrar € 90 bilhões daqui até o mês de junho”, quando a conferência de Paris entrará na fase final de preparações.
Como era inevitável, o presidente elogiou a iniciativa do Banco Central Europeu de injetar na economia € 60 bilhões (R$ 174 bilhões) mensais, para dinamizar um continente estagnado. É o grande assunto na Europa.
Mas Hollande, que se elegeu, em 2012, como uma espécie de anti-Angela Merkel, campeã da austeridade, adotou um tom muito semelhante ao da chanceler alemã.
Disse que “a ação do BCE não deve nos impedir de fazer nossas reformas. Seria muito fácil dizer que agora que o BCE dá liquidez, o que favorecerá o crescimento, não temos mais nada a fazer”.
Na véspera, sempre em Davos, Merkel dissera a mesma coisa: a injeção brutal de liquidez não pode impedir os países de fazer os ajustes necessários e as reformas estruturais – caminho que Hollande garantiu que a França está seguindo e continuará a fazê-lo.
O presidente francês chegou a Davos maior do que era quando foi convidado, antes dos atentados de Paris: embora ainda tenha 65% de opiniões negativas a seu respeito, contra 34% de positivas, atingiu, na semana passado, sua melhor cota desde maio de 2013.
Foi então que iniciou um declínio que parecia terminal.
Sua reação aos atentados demonstrou, no entanto, que ele pode ser, eventualmente, mais que o “presidente normal” como se anunciou na campanha de 2012, como contraponto ao hiperativismo de seu antecessor, Nicolas Sarkozy.
