Mais de cem jogadoras de futebol feminino assinam um manifesto em que denunciam as precárias condições do esporte profissional entre as mulheres e criticam “as ligações esdrúxulas e comparações completamente equivocadas” entre a derrota da seleção feminina sub-20 por 5 a 1 para a Alemanha, na Copa do Mundo juvenil, e a eliminação vexatória do time principal masculino para os alemães, na última Copa do Mundo. O texto foi divulgado nesta sexta-feira (15) nas redes sociais de algumas atletas, como a goleira Thais Picarte, meia Rosana e a zagueira Andreia.
“Enquanto as nossas condições de trabalho forem semelhantes a das peladas que você joga aos finais de semana, respeite-nos e entenda que estamos fazemos milagre ao competir de igual para igual com as principais seleções do mundo”, pontua o texto. As atletas afirmam que o futebol feminino “está em crise desde a data de seu nascimento” e que não há estrutura que permita dedicação exclusiva ao futebol: “a maioria de nós treina seis dias por semana, estuda, trabalha e ainda é dona de casa (…) Não temos mordomia nem salários astronômicos, no máximo temos acordos verbais e ajudas de custo durante três ou seis meses do ano, período das competições femininas no país”.
Falando sobre a seleção sub-20 de mulheres, as jogadoras lembram que o Brasil não conta com competições de base para completar a formação dessas atletas. Elas concluem dizendo que seguem sonhando com mais clubes e mais jogos, mais investimento e reconhecimento e menos preconceito.
O Bom Senso Futebol Clube, movimento de jogadores do futebol masculino, reagiu ao desabafo das colegas, manifestando apoio à causa das jogadoras. Em um texto intitulado “Terra Devastada” (clique para ler), os atletas consideram “inaceitável” a falta de investimentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e federações no futebol feminino: “Seria preferível que o futebol feminino se desvinculasse da desinteressada CBF para que pudesse criar uma confederação independente e recebesse verba da Lei Piva”, sugerem.
Para o Bom Senso, um comando descentralizado da CBF permitiria que o futebol feminino fosse conduzido por atletas e ex-atletas e gestores profissionais, que poderiam traçar um planejamento para fomentar o desenvolvimento da prática entre mulheres.
De acordo com o Bom Senso, o Brasil conta com apenas três mil jogadoras registradas. O Registro Geral de Atletas, disponível no site oficial da CBF, aponta mais de seis mil atletas cadastradas. Na Alemanha, são mais de um milhão de jogadoras, que jogam em um campeonato nacional que cona com duas divisões.
Leia o manifesto das jogadoras de futebol na íntegra:
“NUAS E CRUAS”
Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?
Em um país machista e preconceituoso que nunca acreditou, aceitou ou investiu de verdade no futebol feminino, é muito difícil para nós sonhar. Que o diga as meninas da Seleção sub-20, derrotadas pela Alemanha por 5 a 1 na última terça-feira, e expostas a uma chuva de criticas e comparações completamente equivocadas, sem nenhum conhecimento sobre a nossa modalidade ou sobre a realidade em que vivemos.
Ficamos chocadas com as manchetes sensacionalistas, as ligações esdrúxulas com a vexatória derrota da Seleção masculina na última Copa do Mundo, e com centenas de baboseiras escritas sobre as jovens atletas que, diga-se de passagem, nem competição sub-20 têm no Brasil para se formarem devidamente como “jogadoras de verdade”.
Esta nota, em comum acordo com mais de 100 atletas do futebol feminino, se faz mais do que necessária e vem em tom de desabafo, não para julgar técnica ou taticamente a partida em questão, nem para competir com o futebol masculino, mas para mostrar que somos de carne e osso, existimos, queremos ser ouvidas, não só nas derrotas e nos vexames, mas nas notícias e no dia-dia. Queremos a exposição dos nossos problemas, assim como dos nossos jogos e campeonatos. Queremos, inclusive, que nos ajudem a cobrar as pessoas e as entidades que têm o papel de zelar pelo nosso esporte e não estão nem aí para ele. Chega!
Não há e nunca houve estrutura que nos permitisse dedicação integral ao futebol. A maioria de nós treina 6 dias por semana, estuda, trabalha e ainda é dona de casa. Somos amadoras e sabemos que não será por meio da “profissão” que, por amor, escolhemos para viver que garantiremos o nosso futuro ou a nossa aposentadoria. Não temos mordomia nem salários astronômicos, no máximo temos acordos verbais e ajudas de custo durante 3 ou 6 meses do ano, período das competições femininas no país.
Vivemos de sonhos.
Aliás, se há alguma coisa em que somos realmente craques é em sonhar. Sonhamos com mais clubes e com mais jogos, sonhamos com o reconhecimento por parte da CBF de que se deve investir no futebol feminino, sonhamos que a nossa luta valerá a pena e que o nosso esforço será capaz de pavimentar a estrada pela qual as nossas crianças e jovens se sentirão bem ao praticarem o futebol feminino nas escolas e nos clubes, sem que recebam um olhar ressabiado ou a falta de incentivo da família.
Se um dia as meninas puderem escolher o futebol como profissão, a nossa dedicação terá valido a pena. Aí sim aceitaremos que nos falem de vergonha, de fracasso, de vexame e de atropelamento. Mas antes disso, enquanto as nossas condições de trabalho forem semelhantes a das peladas que você joga aos finais de semana, respeite-nos e entenda que estamos fazemos milagre ao competir de igual para igual com as principais seleções do mundo, que não param de investir e de se desenvolver.
Não queremos ser isca para nos usarem em meio a atual crise do futebol brasileiro como alguns aproveitadores fizeram com as nossas talentosas meninas da Seleção sub-20. Nós, que vivemos o dia a dia, sabemos que o futebol feminino do Brasil está em crise desde a data do seu nascimento, mas estamos dispostas a mudar essa realidade. Basta nos darem a oportunidade, investirem em nós e acreditarem no nosso talento e no nosso amor pelo esporte. Chega de sonhar, é hora de sentar a mesa com a CBF e fazer acontecer, doa a quem doer.
Leia o texto do Bom Senso Futebol Clube:
TERRA DEVASTADA
Pouco se ouve do futebol feminino na mídia ou dentro da CBF durante o ano, mas quando há uma medalha em jogo ou uma derrota expressiva como a que ocorreu para a Alemanha na última terça feira, chovem cobranças e comparações. Alto lá! Se fossemos comparar o futebol feminino e masculino do Brasil por proporção de investimento, a derrota por 5 x 1 para a Alemanha no Mundial sub-20 deveria ser 40 vezes pior para se equiparar ao vergonhoso 7 a 1 sofrido pela Seleção masculina na última Copa do Mundo.
Como é que se pode esperar resultados de uma equipe no Mundial sub-20 se não temos um campeonato nacional da categoria por aqui? Não temos nem campeonato estadual sub-20, aliás, não temos nada! Então como alguém espera formar atletas se não há competição para se jogar? Como cobrar essas meninas que chegaram a Seleção e defendem as cores do Brasil se elas não tiveram nenhum incentivo, base ou estrutura de treino e alimentação durante sua formação?
Não ter investimento no futebol feminino pela CBF e pelas Federações é inaceitável. A Confederação arrecada mais de R$ 400 milhões por ano e nunca se soube quanto, e se, ela investiu no desenvolvimento da modalidade no país. A entidade só pensa na Seleção e no período em que as atletas estão defendendo a nação. Antes e depois disso é cada uma por si.
Seria preferível que o futebol feminino se desvinculasse da desinteressada CBF para que pudesse criar uma confederação independente e recebesse verba da Lei Piva, destinada aos esportes “amadores” ou olímpicos. Colocaria atletas e ex-atletas no comando, contrataria gestores profissionais para tomar decisões administrativas e planejar o desenvolvimento do produto a ser vendido no mercado brasileiro. Avançaríamos anos luz mais rápido do que no modelo atual.
Sim, há um patrocínio da CAIXA no valor de R$ 10 milhões conquistado a duras penas pelo Ministério do Esporte para sustentar o Campeonato Brasileiro e suportar o custo dos jogos, das viagens e das hospedagens dos clubes. Ainda assim, o torneio tem duração de apenas dois meses e meio e não oferece estabilidade pra as atletas e nem tempo para se desenvolver o jogo, tática e fisicamente. Ainda assim, há dirigentes que atrasam ou não pagam salários, que, pasmem, são apenas acordos verbais ou ajuda de custo de valor irrisório.
Na categoria adulta, além do Campeonato Brasileiro que conta com 20 clubes (há equipes que fazem apenas 4 jogos e são eliminadas), há a Copa do Brasil e alguns Estaduais. Uma equipe do Estado de São Paulo que disputa as três competições, por exemplo, pode fazer no mínimo 13 e no máximo 40 jogos no ano. Ou seja, a maior parte dos clubes no país não joga mais do que 20 partidas. Como desenvolver o esporte assim? Como competir com as seleções estrangeiras que não param de se estruturar?
Se depois desse resumo ainda quiser comparar a Seleção Brasileira com a Alemã, saiba que no país europeu há mais de um milhão de praticantes femininas (aqui temos apenas 3 mil registradas). O campeonato nacional delas tem duas divisões que são disputadas ao longo de toda a temporada. Há ainda outras 5 categorias entre amadoras e iniciantes que estimulam o mercado a gostar, praticar e consumir o futebol feminino. Isso é fundamental para esse esporte se tornar viável.
Enfim, chega de sensacionalismo barato. Se for para falar, que seja para mostrar a realidade do que acontece no país e colocar os dirigentes contra a parede para ajudar a construir um futebol melhor. A luta é por investimentos importantes que devem ser feitos pela CBF, por uma estrutura digna, por um repasse de verbas claro e transparente, por um calendário que ofereça estabilidade ao longo da temporada, além de um projeto de formação de novas atletas e de fomentação da prática esportiva que não têm sido, por ignorância ou preconceito, valorizados como deveriam.
Quanto às jogadoras que estão lá em Montreal representando o Brasil, elas têm o nosso respeito e admiração. São oásis em terra devastada, pedras brutas que precisam ser lapidadas. Só jogadoras e ex-jogadoras serão capazes de exigir mudanças, apontar os problemas e conduzir a modalidade a um ambiente propicio para se desenvolver em todas as suas potencialidades. É preciso dar voz a essas apaixonadas atletas, não apenas pela imprensa onde as vemos derrotadas, pedindo ajuda e medindo as palavras ao criticar a falta de apoio da Confederação – com medo de retaliação -, mas pelas entidades que administram a modalidade no país. Meninas, contem com o nosso apoio nessa caminhada.
Democracia na CBF, já!
