A Polícia Federal informou que o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró foi preso preventivamente nesta quarta-feira (14) por ter feito movimentações financeiras suspeitas após ser denunciado pelo Ministério Público Federal e responder a uma ação penal pelas acusações de corrupção e lavagem de dinheiro.
Cerveró foi preso ao desembarcar de Londres, no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Foi encaminhado a Curitiba (PR), e chegou à Superintendência da PF por volta das 9h20 desta quarta. Ele estava na Inglaterra desde dezembro, mesmo mês em que a denúncia do MPF foi aceita pelo juiz federal Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, que investiga corrupção na estatal.
O delegado Igor Romário de Paula, da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, afirma que Cerveró fez essas movimentações financeiras para conseguir dinheiro vivo, e que isso pode indicar duas coisas: ou o ex-diretor planejaria uma fuga, ou tentaria tornar seu patrimônio mais líquido, e dessa forma, o blindaria.
Em algumas dessas operações, o delegado afirma que Cerveró chegou a perder R$ 200 mil para conseguir os valores em espécie.
O Ministério Público Federal, que fez o pedido de prisão preventiva, destacou haver indícios de que “Cerveró continua a praticar crimes, como a ocultação do produto e proveito do crime no exterior, e pela transferência de bens (valores e imóveis) para familiares. Além disso, há evidências de que ele buscará frustrar o cumprimento de penalidades futuras”.
O MPF afirma ainda que o ex-diretor da Petrobras, após o recebimento da denúncia e durante o recesso do Judiciário, tentou transferir para sua filha R$ 500 mil, mesmo que tal operação financeira incorresse em perda de mais de 20%, segundo dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão ligado ao Ministério da Fazenda).
“Cerveró também transferiu recentemente três apartamentos adquiridos com recursos de origem duvidosa, em valores nitidamente subfaturados: há evidências de que os imóveis possuem valor de mais de R$ 7 milhões, sendo que a operação foi declarada por apenas R$ 560 mil. Para o MPF, a custódia cautelar é necessária, também, para resguardar as ordens pública e econômica, diante da dimensão dos crimes e de sua continuidade até o presente momento, o que tem amparo em circunstâncias e provas concretas do caso”, informou a Procuradoria.
Além da prisão, foram feitas buscas em quatro imóveis de Cerveró –dois no bairro de Ipanema e outro em Humaitá, no Rio, e outro no município de Itaipava (RJ). Também foi aberto um novo inquérito para investigar se as movimentações financeiras suspeitas configuram lavagem de dinheiro ou evasão de divisas.
OUTRO LADO
Antes do MPF informar o motivo da prisão, o advogado do ex-diretor, Edson Ribeiro, afirmou não saber a “a fundamentação da decretação da prisão preventiva” e que, quando tivesse acesso ao decreto, iria entrar com pedido de habeas corpus.
“Não vejo motivos para sua prisão, uma vez que comuniquei à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal sua viagem e seu endereço no exterior”, disse Ribeiro.
PASADENA
Cerveró foi diretor da área entre 2003 e 2008, e, como tal, esteve à frente da compra dos 50% iniciais da refinaria de Pasadena, no Texas, em 2006. Segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), o negócio gerou perdas de US$ 792 milhões à estatal.
O ex-diretor assinou o resumo executivo classificado como “falho” pela presidente Dilma Rousseff, quando ela justificou seu voto favorável à compra da refinaria, em março de 2014.
A Petrobras acabou brigando com o grupo belga Astra, de quem era sócio na refinaria. Uma disputa judicial entre ambos arrastou-se entre 2009 e 2012, quando a estatal foi obrigada a comprar os outros 50% no negócio.
ACUSADO
Em dezembro passado, o juiz federal Sergio Moro acolheu denúncia do Ministério Público Federal e mandou abrir uma ação penal contra Cerveró pelas acusações de corrupção e lavagem de dinheiro.
De acordo com o despacho do juiz, a denúncia encaminhada ao Judiciário pelo Ministério Público Federal descreve contratos fechados pela Petrobras mediante propina.
Um dos casos narra que, “em julho de 2006, Julio Camargo, agindo como representante do estaleiro Samsung Heavy Industries Co, da Coreia, logrou conseguir junto à Petrobras que a empresa em questão fosse contratada para o fornecimento de um navio sonda para perfuração de águas profundas (Navio-sonda Petrobras 1000)”.
O contrato teria sido obtido “mediante o pagamento de vantagem indevida de US$ 15 milhões a Cerveró, então diretor Internacional da Petrobras, com a intermediação de Fernando Soares”.
Em depoimento prestado à CPI da Petrobras, no Congresso Nacional, Cerveró negou as acusações.
À época da denúncia, o advogado Edson Ribeiro falou que “Nestor nega veementemente a prática desses crimes”. O advogado disse que a contratação das sondas questionada pelo Ministério Público “foi aprovada de forma colegiada pelas diretorias da Petrobras”.
Indagado sobre os papéis que documentam essa decisão, Ribeiro disse que iria buscá-los na Petrobras por meio judicial, já que Cerveró não guardou cópia da decisão. “As contratações foram legítimas e regulares”, disse o advogado.
