Um dia após chamar a CBF de vergonha na saída de campo após a expulsão na partida entre Botafogo e Bahia, Sheik voltou às câmeras e microfones.
Mais calmo, o atacante do Botafogo reconheceu que pode ter passado um pouco do tom na maneira como reclamou, na adrenalina do jogo, mas não recuou nas críticas. O atacante pediu profissionalização da arbitragem, se disse cansado dos erros e defendeu durante todo o tempo o direito de expressão dos jogadores.
“Normalmente é num momento que a adrenalina está em um milhão. É um desabafo, da maneira que você se coloca. Em relação à vergonha, ela é coletiva. De todos os atletas, torcedor que paga ingresso e vai ao estádio, de ver uma arbitragem incapaz que nem nas peladas de Nova Iguaçu, no fim de semana, do meu irmão, teria condições de apitar. Não são profissionais. A vergonha é em relação a isso. É de estar vindo todos os dias para o clube, trabalhando, de uma maneira geral, enquanto eles estão em escritório. Uma coisa tenho certeza: a vida deles não é só no futebol, não é só arbitrar”, disse Emerson.
PERSEGUIÇÃO DA CBF?
“Eu não acredito em perseguição, acredito em incompetência. A gente espera que a arbitragem seja profissional como nós, que acordamos cedo, vamos ao clube. Espero que a CBF se posicione a fim de profissionalizar a arbitragem. É inadmissível que enquanto os atletas estão em seus clubes trabalhando, focando, alguns árbitros estão em uma sala, num escritório, resolvendo outro tipo de problemas. A esperança é que a CBF se posicione a fim de profissionalizar isso”
NOVE AMARELOS NOS ÚLTIMOS NOVE JOGOS
“Talvez alguns desses cartões certamente eu tenha merecido. Por outro lado, não querendo ser diferente de ninguém, eu sou um atleta que dou trabalho. Sou um atleta que quando eu entro para disputar uma partida eu quero vencer, dar o meu melhor e o árbitro tem estar preparado para trabalhar com atletas de alto nível. Nosso futebol brasileiro, a nossa arbitragem não está preparada. Sim, alguns desses cartões são merecidos, mas a arbitragem vem com um pensamento diferente para alguns atletas no futebol nacional. Atletas que se destacam, cada um com seu perfil, competindo, sendo mais aguerrido, agressivo. A arbitragem às vezes está individualizando alguns atletas e isso é prejudicial para a partida e para a própria carreira deles”
RELATOS DE PALAVRÕES NA SÚMULA
“Daí tem que ir pra igreja, né? Dentro de um campo você não falar um porra, um foda-se, como vai fazer? Tem momentos que ali não é ofensa, você não está agredindo o cara. Não está agredindo verbalmente a pessoa. É força de expressão. Lógico que em momentos de descontamento, por conta de falhas grotescas, lógico que você fala, senão vamos ficar a semana inteira aqui conversando. Todo mundo aqui já falou um “porra”. Ou não?”
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
“Uma coisa que é muito clara para mim é que desde moleque sempre fui apaixonado pelo que eu faço. Meu sonho era ser atleta profissional. É muito triste hoje ver o que eu mais sonhei em toda minha vida, ver o sonho dos meus filhos em serem jogadores de futebol, é muito triste ver tudo isso que está acontecendo. Não sei porque nós, atletas, não podemos desabafar. Por quê? Há uma rejeição em relação a nós, atletas, quando a gente abre a boca para opinar. Vejo vocês na tv fazendo crítica à CBF muito mais pesadas do que eu fiz ontem. A gente não pode falar? Por que que tem esse tabu de atleta? Vergonha, ignorância é querer punir, dar uma punição a um atleta porque ele se manifestou, deu sua opinião. Isso, sim, é ignorância. Em nenhum momento eu quis ser polêmico. Por que a gente não pode participar da discussão?”
OPINIÃO EM CAMPO
“Falei o que eu acho e tenho certeza absoluta que o que eu acho muito acham, mas poucos têm coragem de falar. Eu tenho 36 anos, sou muito bem resolvido, a minha carreira é de vitórias, conquistas, então acho que tenho o perfil pra vir aqui e falar. Não sou nenhum menino. As pessoas têm de respeitar isso, a opinião do outro. No nosso esporte a nossa imprensa, os atletas…por que só a imprensa fala, só vocês podem e a gente não? Não é apontar o Emerson porque foi lá na câmera e falou o que pensa. É a a realidade, o que estamos vivendo. E se não abraçarmos essa ideia, fica difícil para vocês (imprensa) também. A gente precisa de mudanças e se vocês que têm caneta, papel e agora computador puderem ajudar vai ser melhor também”
PREOCUPAÇÃO COM DENÚNCIAS DO STJD?
“Já respondi essa pergunta e vou acrescentar aqui minha posição como atleta. A gente não vai poder falar nunca? É proibido eu desabafar, dar minha opinião? Vivo isso diariamente. O futebol existe por conta dos jogadores e se eles não puderem participar dessa discussão está tudo errado. Em relação à denúncia, gancho, isso não cabe ao Emerson, atleta, falar. Tem o Botafogo que certamente vai se posicionar no momento certo e se assim precisar”
EXPULSÕES DO BOTAFOGO NOS ÚLTIMOS JOGOS SE DEVE TAMBÉM AO AMBIENTE FORA DE CAMPO?
“Esses números de expulsões, se você me permite tirar as três de ontem, ele vai cair. Ontem foi uma situação, não vou qualificar, até porque não assisti ao jogo pela tv e quero ver antes de falar. Lógico que algumas coisas que acontecem com o Botafogo fora de campo para alguns atletas tem um peso diferente. Isso é muito particular, cada um recebe de uma maneira. Mas ainda assim o clube tem profissionais qualificados, que vêm conversando com os atletas. Hoje mesmo tivemos uma reunião para amenizar tudo isso que vem acontecendo e nos prejudicando dentro das partidas. Mancini é um cara que pega pesado com a gente, em relação a terminar a partida com um jogador a menor. Tudo isso vem sendo discutido internamente a fim de melhorias, mas é óbvio que os atletas precisam parar um pouco, me incluindo, inclusive, a fim de cuidar esse lado para que não fique com jogadores a menos para que a situação não se complique mais”
ACUSAÇÕES DE SER JOGADOR VIOLENTO
“Eu não sou violento mesmo. Sou muito competitivo, realmente não gosto de perder. Duelos individuais eu gosto de ganhar, sou um cara que me movimento muito, enfim. Mas vale lembrar também que o que vocês cobrem futebol, ele é um esporte de contato e os choques acontecem. É natural. Em relação ao Henrique, que foi contra o Cruzeiro, foi uma jogada forte, dura e que infelizmente por frações de segundos às vezes você levanta a perna demais, abaixa de menos, e o choque acontece. Ontem, na minha expulsão, eu nem sei o nome do menino, do atleta, nem é falta de respeito. Uelliton? A única coisa que vi retornando para casa foi a expulsão. O primeiro cartão amarelo foi um absurdo. Eu recebi a falta, cobrei e ele inverteu tudo. O segundo lance eu queria ver se eu toco o atleta do Bahia. Pelas imagens não consegui ver, porém ele publicou uma foto hoje de uma marca. Mas querendo ver o toque eu teria dado, curiosamente eu vi outra situação. Eu fui expulso sem o árbitro ver o lance da jogada, porque ele estava encoberto. Ele me expulsou sem ver a jogada, as imagens são claras. O lance é cardápio, não sei se toquei a coxa dele, como ele falou e publicou”
JOGADOR DE FUTEBOL E EXPRESSÃO DE LIBERDADE
“O jogador de futebol está acostumado com as pessoas, com a fama de que é burro, ignorante, vir aqui para ouvir de conquistar os três pontos, se Deus quiser. Não é assim? É uma puta ignorância pensar assim. Eu não estou induzindo ninguém a nada, só estou falando o que estou vendo. E como falei anteriormente, sobre punição não quero entrar (no assunto), todo mundo me conhece e daqui a pouco vou começar a falar merda e tal. Tenho certeza absoluta que está todo mundo vendo e é uma pena. Aqui, sim, talvez fosse o lugar para eu expressar minha opinião”
PENSAR ANTES DE FALAR
“Não fecho os olhos e saio falando qualquer coisa. Eu penso no que eu falo. Alguém aqui dentro dessa sala discorda da arbitragem do futebol brasileiro, por favor, se manifeste. Eu não falei nada de mais. Eu posso ter me exaltado um pouco ontem? Posso. E um cara que não tem nada a ver com nosso meio consegue estragar planejamento de um ano, sonho de profissionais, pessoas que diariamente vêm aos clubes para poder trabalhar. Gente que não tem nada a ver com nosso mundo. Domingo, 16h, eu saio da minha casa, vou lá no Maracanã apitar o jogo. Domingo de manhã estamos concentrados, sábado tem treinamento de manhã. Domingo a gente só larga o clube quando acaba o jogo. Isso é profissionalismo. Ninguém vai ao shopping, sai para jantar. Agora, se o Gottardo me liberar, 12h, 13h vou para o Maracanã jogar. De manhã vou para praia. Eu gosto de praia. Mas não é assim. Nosso futebol se perdeu. Ontem falei para o Lomba, goleiro do Bahia, joguei com ele no Flamengo. Ele falou: Emerson, para de falar, tudo isso vai vir contra você mesmo. Eu falei que o próprio CBF não gosta da arbitragem. Se ele não confia, vamos esperar por quem? Quem vai consertar tudo isso? Vocês (imprensa) podem ajudar”
APOIO DE OUTROS JOGADORES
“Acho que tenho, sim, o apoio. Pelo menos dos atletas do Botafogo. Recebi muitas mensagens na madrugada, hoje pela manhã também”
